O progresso intelectual e moral do ser humano ocorre tanto com o vagar dos milênios como com o choque brusco de algumas horas.
A tragédia recente no Japão é exemplo da segunda forma.
Para conseguir enxergar isso, é preciso, antes de mais nada, entender que desastres naturais são (ora!) naturais.
A movimentação de placas tectônicas no interior da Terra – ou seja, terremotos, tsunamis etc. – sempre existiu e, aliás, era muito mais frequente nas primeiras Eras da Terra e, nem por isso, o mundo acabou (então não me diga que é o fim dos tempos).
Acidentes nucleares, já houve piores. Tudo controlado. Tudo superado.
Pois bem.
Convido vocês, agora, a observar o lado “bonito” e funcional do desastre!
- Evolução científica:
No momento presente, engenheiros e especialistas não podem pensar em dormir antes de encontrar uma forma eficaz de reduzir o superaquecimento dos reatores nucleares, a fim de evitar mais explosões.
Os tais reatores tinham uma forma de resfriamento próprio que, por razões diversas, não funcionou. Certamente, quando o perigo maior for eliminado, cientistas de todo o mundo vão encarar o desafio de entender o que deu errado e como aprimorar técnicas e recursos para evitar falhas no futuro.
Isso aconteceu aqui no Brasil, em setembro de 1987, após a contaminação com Césio-137 na cidade de Goiânia.
Walter Mendes, físico nuclear da CNEN, relata, em entrevista, que, depois da referida tragédia, a forma de lidar com radiação no país mudou completamente – o atendimento às vítimas, as técnicas de descontaminação, o tratamento em relação ao meio ambiente, o controle de material radioativo, entre outros – e conclui: “com cada acidente se aprende”. Tudo melhorou por aqui. Tudo melhorará no Japão – e bem mais, afinal, o país do sol nascente é a 3ª maior economia do mundo e um dos pioneiros em tecnologia.
O progresso também ocorrerá na sismologia. Nossa capacidade de prever abalos sísmicos é de cerca de 10%. Com os estudos a se realizar após o desastre no Japão, devemos dar mais alguns passos.
Na verdade, o progresso científico ocorrerá em muitas outras áreas, as quais, por limitações próprias, não sou capaz sequer de imaginar.
Vejamos outros aspectos.
- Evolução política:
Reacende-se o debate sobre a conveniência da geração de energia nuclear!
É geral! Nos telejornais, nas universidades, nas salas de aula, nas reuniões partidárias, no Congresso, no Senado, nas câmaras, especialistas e gente comum, no trabalho, em casa, em reunião com a família, ou na mesa de um bar, com os amigos.
Todos, em algum momento, param para pensar e falar sobre questão. Compensa? Não compensa? Que rumos tomaremos? Lembrando que o debate é importantíssimo para a construção do conhecimento e tomada de decisões.
Por enquanto, Alemanha e Suíça suspenderam investimentos em novas usinas nucleares. China, Índia e Estados Unidos, entre outros países, já ordenaram uma inspeção geral da segurança de suas centrais nucleares. O Brasil também decidiu reavaliar a segurança de Angra I e Angra II. Todos os países devem revisar e reforçar a segurança de suas usinas em razão do ocorrido no Japão.
Ah! Cooperação entre os povos!
União Europeia, Rússia e China disponibilizaram equipes de emergência. A França enviou 95 toneladas de produtos químicos para atrasar a fusão nuclear, além de acessórios e roupas especiais para proteger os agentes contra a radiação. Os EUA disponibilizaram alguns militares. O Brasil se colocou à disposição, sem ainda mencionar que tipo de ajuda pode dar. Espanha, Inglaterra e Coréia do Sul, e outros países, fizeram o mesmo.
Enfim, várias nações se colocaram à disposição! É a consecução do que se pretende a boa diplomacia!
- Evolução moral:
A cooperação se desenvolve não só entre nações, mas entre pessoas - surge um altruísmo agigantado!
Não sei se vocês sabem, mas os militares que sobrevoam a usina só o podem fazer por, no máximo, 15 minutos, sob pena de serem contaminados. Que dizer então dos 180 funcionários que se arriscam dentro da usina para tentar controlar o vazamento? O que é que move um ser a colocar-se, não em risco mas, em dano certo, para tentar solucionar um problema e evitar um desastre?
É o altruísmo! Essa linda virtude que, em definição do Michaellis, significa: Amor ao próximo; abnegação, filantropia. É lindo ver!
Mas, falando em virtudes...
Em O Livro dos Espíritos, na questão n. 740, Kardec pergunta se os flagelos naturais são provas morais para o homem e obtém a seguinte resposta:
“Os flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo.” (destaquei)
De Fato!
Quando, de um dia para o outro, uma onda gigante “varre” tudo o que você tem (carro, objetos pessoais, casa etc.), como brinquedos em uma enxurrada, e não sobra nada, é momento de reconhecer a nossa pequenez, a fugacidade das coisas materiais, a fragilidade humana e, sim, resignar-se às Leis de Deus, da Natureza;
Quando se é obrigado a ir para abrigos comunitários lotados, com racionamento de tudo – comida, energia, água, remédio; falta de informações e nenhuma previsão de quando essa situação vai terminar, o que resta é ter paciência, muita paciência;
Quando, comovidos por tanto sofrimento e sentindo o altruísmo nascer em nós, nos dispomos a ajudar o outro, custe o que custar, estamos exercendo a abnegação e o amor ao próximo de forma desinteressada, porque não há recompensa material por isso.
Sim, crescemos muito com as dificuldades!
E nossos irmãos japoneses estão crescendo muito mais, espiritualmente falando.
Enquanto isso, nós aqui, em nossa zona de conforto, perdendo tempo com qualquer besteira, podemos refletir, inclusive, sobre o comportamento exemplar do japonês diante da situação de pânico: calmo, educado, disciplinado, organizado (...).
***
Bom, eu tenho muita coisa pra escrever ainda, mas não quero cansá-los mais do que já cansei. Peço desculpas se, apesar disso, acabei sendo lacônica e deixei faltar detalhes importantes.
O objetivo era e é apenas mostrar que às vezes a tragédia se faz necessária para a evolução mais célere dos seres.
Então, eu lhe desafio a, na próxima reportagem que assistir ou ler, ao invés de reclamar e lamentar excessivamente, com tanto negativismo, ter olhos para enxergar qual é o progresso (o lado bom!) que se evidencia, ou timidamente se anuncia.
Grande abraço!