Chico Buarque, compositor incomparável do qual sou eterna admiradora, conseguiu captar magistralmente a lógica do carnaval na seguinte composição:
Noite dos Mascarados
- Quem é você?
- Adivinha se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão!
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão... Fui porta-estandarte, não sei mais dançar...
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!
Mas é Carnaval! Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr,
Deixa o dia raiar que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for, seja o que Deus quiser!
Seja você quem for, seja o que Deus quiser!
- Adivinha se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão!
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão... Fui porta-estandarte, não sei mais dançar...
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!
Mas é Carnaval! Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr,
Deixa o dia raiar que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for, seja o que Deus quiser!
Seja você quem for, seja o que Deus quiser!
É fantástico!
Observemos...
Começa bem o diálogo com “quem é você?” a indicar duas pessoas que nunca antes se viram na vida. São absolutamente estranhas entre si.
Explica o narrador que os mascarados (aqueles que não querem mostrar sua face) saem a procura de seus namorados. E não é esse o propósito da maioria dos jovens nas festanças de carnaval?
A intenção dos dois fica logo bem definida – no carnaval não se perde tempo: “diga logo”, “eu quero morrer no seu bloco”, “eu quero me arder no seu fogo”.
E quem são esses dois a se consorciar? Vide o antagonismo gritante contrastado pelo compositor: um é seresteiro e poeta, o outro zomba do amor; um nada em dinheiro, o outro não tem um tostão; um não sabe dançar, o outro nasceu pra isso; um é jovem, o outro não. Ou seja: São pessoas totalmente diferentes! E não é aquela diferença saudável que se complementa não. É a diferença do NADA A VER um com outro mesmo, que jamais daria certo, sem futuro nenhum!
“Mas é Carnaval!”, concluem.
E que papo chato!... Pare... “Não me diga mais quem é você!”. Não interessa.
“Deixa a festa acabar, deixa o barco correr”... Carpe diem!! Carpe carnaval!
“Deixa o dia raiar que hoje eu sou Da maneira que você me quer. O que você pedir eu lhe dou Seja você quem for”. Vixe! É com esse pensamento que as pessoas perdem a postura e, encorajadas pelo álcool, drogas, máscaras e influenciações, se dispõem a fazer o que, em dias normais, jamais fariam.
É quando a mulher comportada sobe na mesa, o cara dá em cima da mulher do outro, os rapazes têm idéias esdrúxulas e infelizes, a mocinha de família decide que pode se exaltar...
É o ápice do whatever, do tanto faz, do foda-se – irracional e desmedido.
Geralmente quando jogamos nas mãos de Deus (“seja o que Deus quiser”) é que queremos nos livrar da responsabilidade, como se isso fosse possível.
Que grande ilusão eleita!
“Amanhã tudo volta ao normal”?! – volta nunca.
É um grande engano pensar que o que se faz no carnaval, por lá fica.
Não somos seres estanques, nossa vida não está dividida em contos – é um conto só!
E no amanhã, após o carnaval, vamos sim lidar com os reflexos dos 4 ou 5 dias anteriores: as vezes um prejuízo financeiro, uma ressaca insuportável, um ferimento mais grave, uma amizade rompida por uma briga vil, uma gravidez indesejada, o contágio de uma doença...
Isso tudo sem mencionar os prejuízos de ordem espiritual! Quantos de nós não regressamos aos nossos lares trazendo a companhia de um irmão desencarnado infeliz, ainda afoito pelas sensações da embriaguez e do sexo desregrado?
Constantemente conosco, ainda que sem perceber, esse irmão vem acentuar as nossas reações de impaciência, de irritabilidade, de agressividade, preguiça, descrença, desânimo, depressão... Consolida-se o desequilíbrio.
Para “consertar” tudo isso o caminho é longo e árduo.
Somos nós, a trancos e barrancos, no caminho da evolução.
Usaria este texto em um estudo de mocidade!! Que orgulho!!!! rsrsrsrsrs. Amiga, continue escrevendo porque eu estou adorando. Não sabia desse seu talento. Sucesso no blog. Bjss
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